O imaginário popular da Ilha do Ferro

Mais um dia quente de verão e lá estávamos nós a caminho da tão famosa Ilha do Ferro, um lugar que sempre ouvia falar, mas precisava conhecer seus encantos de perto. O povoado é conhecido pelo artesanato local, principalmente pelos utilitários e objetos decorativos em madeira inspirados pelo imaginário popular.

Artesanato da Ilha do Ferro. Foto: Itawi Albuquerque.
Artesanato da Ilha do Ferro. Foto: Itawi Albuquerque.
Peça do Mestre Aberaldo. Foto: Mariana Cavalcante.
Casinhas na Ilha do Ferro. Foto: Mariana Cavalcante.
Objetos com a vista para o Rio São Francisco. Foto: Mariana Cavalcante.

A distância entre Maceió e Pão de Açúcar, município onde está localizada a Ilha do Ferro, é de aproximadamente 230km. Saímos de Maceió no começo da tarde e chegamos à noite em Pão de Açúcar. Foi uma viagem cansativa, mas valeu a pena pela vista, é incrível como Alagoas pode ser tão pequena em extensão e tão diversa em vegetação que vão desde o litoral ao sertão.

Nos instalamos na casa de um amigo e após um banho renovamos nossas energias para curtir a noite pão de açucarense. Fomos para o bar “Empório by Madú” no calçadão e apesar da cidade estar praticamente vazia, nos divertimos muito. Aproveitamos para fazer um tour noturno pela orla lagunar, onde achamos um sobrado e várias casas do período colonial que são legais para tirar fotos.

Casinhas no calçadão em Pão de Açúcar. Foto: Mariana Cavalcante.
Sobradinho no calçadão em Pão de Açúcar. Foto: Mariana Cavalcante.

Na manhã seguinte partimos para a Ilha do Ferro. Durante a estrada de barro passamos pelo assentamento onde mora o artesão Boró, que coincidentemente estava dando uma oficina de esculturas em madeira aos moradores do assentamento. Tinham desde adultos até crianças, o filho de Boró era um deles. Fiquei muito feliz de ver aquela cena, visto que muitos costumes e tradições acabam por se perder no tempo devido à falta de repasse dos conhecimentos e do interesse dos mais jovens em praticá-las.

Casa do artesão Boró. Foto: Mariana Cavalcante.
Crianças na oficina de esculturas em madeira. Foto: Mariana Cavalcante.
Banco de madeira do artesão Boró. Foto: Mariana Cavalcante.

Nossa primeira parada na Ilha foi a casa do Mestre Aberaldo, no quintal de sua residência está a Pousada da Dona Vana, sua esposa, onde resolvemos nos hospedar. Não preciso nem dizer o quanto fiquei en-can-ta-da quando cheguei ao local! A energia, as cores, as plantas e até os mínimos detalhes… o lugar transpira arte e é impossível não se sentir bem. O Mestre Aberaldo faz diversas obras de arte utilizando a madeira, é muito conhecido pelas cabeças que faz em diferentes tamanhos.

Quintal da casa do Mestre Abertaldo. Foto: Mariana Cavalcante.
Eu e Virna na casa do Mestre Aberaldo. Foto: Roberta Medeiros.
Pousada da Dona Vana. Foto: Mariana Cavalcante.
Bonecos do Mestre Aberaldo. Foto: Itawi Albuquerque.
Mestre Aberaldo em seu ateliê. Foto: Itawi Albuquerque.

Continuamos a tour pela ilha, fomos primeiro à casa do Mestre Petrônio, que fica em frente à casa do Mestre Aberaldo. Petrônio é famoso por suas esculturas de monstrinhos super coloridos. Para nossa surpresa seu filho Yang, que resolveu seguir os ensinamentos artísticos do pai, estava fazendo seus bonecos bailarinos no quintal. Acabei não resistindo e comprei um para mim.

Mestre Petrônio com suas obras. Foto: Acervo Sedetur.
Yang trabalhando em suas peças. Foto: Mariana Cavalcante.
Bonecos bailarinos de Yang. Foto: Mariana Cavalcante.

Passamos pela casa do artesão Dedé, que é super simpático e o ateliê dele é uma graça! Tem peças dele e de outros artesãos locais. Desde esculturas até os banquinhos típicos da ilha. O que mais me impressionou foram os dizeres escritos nas peças, que refletem o cotidiano e a forma de pensar dos moradores do local, não tive escolha a não ser comprar um banquinho pra mim rs. Dedé inclusive tinha acabado de chegar a seu ateliê com restos de embarcações de madeira que ele havia encontrado para fazer novas peças. Além de artesão, Dedé é um ótimo guia turístico, realiza passeios de barco pelo rio São Francisco, irei deixar seu contato no final do post para que possam entrar em contato.

Peças a venda no ateliê do Dedé. Foto: Mariana Cavalcante.
Banquinho do Dedé que comprei. Foto: Mariana Cavalcante.
Mais obras à venda no ateliê. Foto: Mariana Cavalcante.

Seguimos para o Ateliê Boca do Vento, essa é uma parada mais que obrigatória para quem vai à Ilha do Ferro! Nessa casa morou o Mestre Fernando, o grande percussor da arte na Ilha. Ensinava os moradores a fazer peças em madeira embaixo da árvore que está situada na porta de sua casa. Infelizmente faleceu em 2009, mas seus herdeiros seguiram seu legado. Um dos grandes nomes é o Mestre Valmir, casado com sua neta. Suas peças surpreendem porque são singulares, aproveita troncos e raízes de árvores que encontra para fazer cadeiras.

Artesanato no Ateliê Boca do Vento. Foto: Kaio Fragoso.
Artesanato no Ateliê Boca do Vento. Foto: Kaio Fragoso.
Mestre Valmir fazendo suas peças. Foto: Michel Rios.
Cadeira do Mestre Valmir. Foto: Michel Rios.

Próximo à antiga residência do Mestre Fernando foi construído um Museu em sua homenagem. Inaugurado em 2017 sob coordenação da UNEAL, possui um rico acervo com obras de diversos artesãos locais, inclusive do mestre. Outros locais em que podemos encontrar muitas peças de artesanato é a casa dos artistas plásticos Maria Amélia Vieira e Dalton Costa e a Galeria A Cabra. Colocarei os contatos no final do post.

Museu da Ilha do Ferro. Foto: Kaio Fragoso.
Museu da Ilha do Ferro. Foto: Kaio Fragoso.
A Cabra. Foto: @cabrailhadoferro.
Casa dos artistas plásticos Maria Amélia Vieira e Dalton Costa. Foto: Booking.

No quintal da casa do Mestre Vavan vimos suas obras super expressivas e coloridas… sereias, cadeiras, lustres e barcos. No primeiro andar de sua casa tinham mulheres fazendo o Bordado Boa Noite, para quem não sabe, além das esculturas em madeiras, há um grupo de artesãs na ilha que fazem esse bordado.

Artesão Vavan. Foto: Felipe Brasil.
Obra sendo feita. Foto: Felipe Brasil.
Ateliê do Vavan. Foto: Mariana Cavalcante.
Bordado Boa Noite na Ilha do Ferro. Foto: Copar Air Lines.
Detalhes do bordado. Foto: Copa Air Lines.

O dia foi bem cansativo, porém inspirador. Voltamos para a pousada da Dona Vana e aproveitamos sua comida regional que é uma delícia! No dia seguinte preferimos relaxar e tomar um banho no velho chico, até uma vaca que estava no local resolveu tomar banho juntinho da gente rs. Sem dúvidas, a Ilha do Ferro é um local que eu quero voltar mais vezes. Sua simplicidade e gente receptiva nos fazem repensar que não precisamos ir para muito longe para termos experiências singulares e que transpiram arte e cultura.

Dicas e informações:

  • Para quem quiser dormir em Pão de Açúcar encontrei duas pousadas no Google: Pousada Avenida (Telefone: 82 3624.1229) e Pousada Portal do Sol (Telefone: 82 996.002.366).
  • Pousada da Dona Vana na Ilha do Ferro – Instagram / Email: marianailhadoferro@gmail.com / Telefone: 79 996.828.438.
  • Os artistas plásticos Maria Amélia Vieira e Dalton Costa também alugam sua residência que transpira artesanato com vista para o rio São Francisco. É possível alugá-la através deste link do Booking / Telefone: 82 999.825.610 / Email: mameliavs@hotmail.com.
  • Museu em homenagem ao Mestre Fernando – Rua Matias de Souza Fontes, n110, Povoado Ilha do Ferro, Pão de Açúcar – Alagoas / Telefone: 82 3624.8008 / Instagram. Aberto de segunda a domingo das 7h às 17h.
  • Galeria A Cabra – Instagram.
  • Passeios de barco com o artesão Dedé – Telefone: 82 996.657.355.
  • O clima da Ilha do Ferro é muito quente, principalmente durante o verão. Então levem muito protetor solar e se preferirem usem uma sombrinha, chapéu ou algo para se proteger. Beber muita água também é uma dica preciosa!
  • Se for tomar banho no Velho Chico, cuidado! É interessante perguntar aos moradores onde é local mais seguro para banho.

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